A oitava porta
A primeira chave não abriu a galeria; abriu meu corpo por dentro.
O metal estalou e, com ele, uma pergunta: quem é cuidado quando ninguém vê?
Atrás do portão, o ar tinha cheiro de desinfetante cansado e pressa antiga.
Eu não era mais “doutor”; era um jaleco sob vigia, um ouvido em zona proibida.
“Se for pra me dar mais calmante, nem perde tempo”, disse Jéssica, sem pedir licença.
O pedido dela não era recusa de remédio; era recusa de desaparecer.
Na prateleira, diazepam em fila; no armário, o vazio de ácido fólico e futuro.
A farmácia do cárcere dizia muito sem levantar a voz.
Eu procurei uma cadeira; encontrei um caderno amassado e uma caneta que falhava.
Sentei mesmo assim, porque às vezes o cuidado começa na teimosia do corpo que fica.
Jéssica encostou na parede como quem já aprendeu a não ocupar espaço.
Disse que dormia à força, acordava em guerra, vivia no intervalo do próximo grito.
Perguntei o nome do filho; ela respondeu com os olhos, antes da boca.
Na ficha, havia códigos; na pele, um abandono com data antiga.
Entendi ali que nem toda prescrição cabe na dose.
Na semana seguinte, levei lápis de cor, como quem contrabandeia oxigênio.
Ela desenhou uma mulher em chamas segurando uma flor e não pediu desculpas.
“Sou eu”, disse. “Queimo por dentro, mas ainda ofereço beleza.”
A flor era pequena; o gesto, imenso.
Do lado de fora, chamariam aquilo de atividade; ali, era outra coisa.
No corredor, um agente comentou: “aqui todo mundo enlouquece um pouco”.
Pensei no que se perde quando ninguém escuta.
No outro dia, faltou rifampicina; sobrou tosse, sobrou espera, sobrou risco.
Uma interna apareceu com a caderneta amarela e a firmeza de quem insiste:
“Se ninguém vier, eu mesma assino. Mas não vou parar.”
Foi quando percebi a oitava porta: a que não tem tranca.
Ela se abre quando alguém escolhe permanecer.
Não leva para fora; atravessa. O muro continua, mas já não fala sozinho.
E eu aprendi a voltar, todo dia, para não me tornar parede.
Carlos Toledo


