Poema 1 de 5
Envelhecer
Na cela ao lado há um velho que despertaAntes da aurora acender o corredor.Escuta ao longe a tranca meio aberta,O passo do plantão, a tosse, algum rumor.
Pousa devagar a mão sobre o joelho,Como quem procura ali um tempo antigo.No alumínio gasto, em vez do próprio espelho,Busca o rosto de um amor já ido.
Depois, senta-se à beira da passagemE toma o sol ralo que entra pela grade.Há quem envelheça só; mas há coragemEm quem sustenta amor na adversidade.
Porque amar, mesmo ali, sem claridade,É recusar ao tempo a sua inteira fome.É guardar no peito, contra a ferrugem daidade,A chama de alguém chamando o seu nome.
Envelhecer, enfim, talvez não seja alarde:É amar devagar, e ainda assim, arder tarde.
Carlos Toledo






